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Wokewashing e o diálogo de surdos

06/01/2022 - Por fernando de mesquita sampaio
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Dentre minhas resoluções de ano novo, uma que está no topo da lista é manter distância de redes sociais em 2022, incluindo o whatsapp. Especialmente em um ano eleitoral, as redes tendem a ser ambientes mais tóxicos do que já são.

É um erro achar que redes sociais são espaços para reflexão. Não são. São “no man’s land” onde o mais importante não debater ideias, mas demarcar território. Mostrar sua posição e “pertencer” a um grupo enquanto tenta aniquilar o outro, já que quem discorda de você está obviamente errado, é burro ou manipulado.

Apesar de tudo, aprendi ano passado uma palavra nova nas redes: Woke. O termo nasceu entre jovens afro-americanos que o usavam para designar aqueles que tinham ganhado consciência em relação à realidade racial que os cercava de preconceito. O uso da gíria evoluiu, e passou a designar todos aqueles que se julgam mais conscientes do que outros em relação a qualquer tipo de questão social ou ambiental. Os que não demonstram essa consciência devem ser cancelados, de preferência com ataques em enxames.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie publicou no seu site um ensaio formidável intitulado “It is Obscene: A True Reflection in Three Parts”, partindo de uma experiência pessoal de “cancelamento”. Nas redes, diz ela: “Agora somos anjos nos acotovelando para ver quem é mais anjo que os outros. Deus nos ajude. É obsceno”.

Pois é. As redes estão cheias de gente tentando demonstrar virtude para o mundo.

O problema é que a cultura Woke chegou ao departamento de marketing de empresas. Empresas também querem parecer anjos. Wokewashing é o novo greenwashing. Imagine um banco que lucra milhões emprestando dinheiro a juros pornográficos para velhinhos aposentados. Agiotas que nas redes sociais querem nos convencer de que pensam no bem das pessoas e do planeta. Wokewashing.

E aí, meus amigos, a agropecuária (e especialmente a pecuária) é um alvo fácil para quem deseja demonstrar toda sua virtude em redes sociais, sejam essas pessoas físicas ou jurídicas. A agropecuária desmata, aquece o planeta, oprime populações tradicionais, concentra riqueza, envenena as pessoas... Dizem eles.

Já vimos o mesmo filme com celebridades, programas de televisão, escola de samba, uma marca de cerveja, um banco... Alguém tentando posar de Capitão Planeta solta uma batatada. Chovem notas de repúdio do agro e uma infindável e tediosa onda de cancelamentos e contra-cancelamentos que não significam absolutamente nada em termos comerciais (porque ninguém vai comer mais ou menos carne e soja por conta disso), mas deixam influencers e o Mark Zuckerberg mais ricos, já que é este quem monetiza de fato o trânsito em suas plataformas. E para ele, mais treta é mais grana.

Ah, mas os lacradores têm que ser respondidos. Sim. A boa notícia é que empresas, principalmente as que entendem que o agro é o setor mais relevante da economia vão pensar duas vezes antes que querer fazer wokewashing em cima da agropecuária. A má notícia é que vai aparecer outro lacrador. Depois outro, e veremos o mesmo filme das notinhas de repúdio e revolta nas redes do agro.

Apesar de confessar um certo prazer sádico em ver lacradores sendo lacrados, a proposta da minha reflexão é menos sobre como responder a cada ataque, e mais sobre os motivos que fazem do setor um alvo fácil. Aí entramos no que chamo de diálogo de surdos.

Quem está fora fala: vocês são insustentáveis.

Quem está no setor responde: somos os mais sustentáveis do mundo.

Quem está fora está olhando a floresta diminuir ano a ano e virar pasto e boi. Está olhando muita produção nas mãos de poucos. Está olhando ineficiência e mau uso da terra. Grilagem. Extração ilegal de madeira. Pressão em cima de povos e comunidades tradicionais.

Quem está no setor está olhando agricultura de baixo carbono. Tecnologia de ponta. Alta produtividade. Regras trabalhistas rígidas. Um código florestal que faz de cada produtor um conservacionista só com ônus e sem nenhum bônus.

É óbvio que a complexidade deste país engloba diversas realidades rurais, desde uma produção de ponta até o cenário de caos em certas fronteiras. Nas redes essa conversa não vai a lugar algum. O que um fala não é o que o outro quer saber.

Ouço muito que o setor tem que reunir e mostrar bons dados. Ótimo. É sempre bom mostrar o quando se conserva de florestas em propriedades rurais no Brasil. Mostrar que pecuária pode sequestrar carbono.

Mas a minha impressão é que não adiantará muito enquanto o setor não se posicionar e agir em relação aos outros assuntos. Problemas que não são dele, mas caem no seu colo. O que a agropecuária brasileira ganha com a grilagem de terras na Amazonia? Com o desmatamento ilegal? Com a invasão de terras indígenas? Nada. Porque o setor não se posiciona em relação à agenda do clima de forma propositiva, já que só tem a ganhar com isso? Acho que nossas lideranças têm medo de serem cancelados por seus seguidores. Alguém poderia pensar que eles são, horror dos horrores, progressistas.  Por esse medo deixam inclusive que gente da pior espécie (e estou falando de corruptos, grileiros et caterva) fale em nome do Agro...Aí o alvo fica fácil mesmo.

Mas mais do que discursos, o que o Agro tem de iniciativas concretas para resolver os passivos em relação à legislação? Para rastrear e comprovar a origem legal de seus produtos? Para acabar com a ineficiência no uso da terra? Melhorar a renda de pequenos produtores? Disseminar conhecimento e tecnologia? Eu acho que tem muita coisa a ser mostrada nesse sentido. E muita coisa a ser feita. E melhorada.  Quais são os espaços que o setor tem construído para buscar soluções? E sabendo que essas soluções dependem também de outros atores dentro e fora da cadeia, como envolve-los? Sugiro começarmos pelos bancos.

Ao comentar o ensaio de Chimamanda Adichie, J.P. Coutinho fala que nas redes, virtude é performance. É muito fácil cancelar os outros. Difícil mesmo é por a mão na massa e trabalhar de verdade por um mundo melhor. Diz ele: “Não existe compaixão sem coragem. E não existe coragem sem colocarmos a nossa pele em jogo.”

PS1. Temos aqui em Mato Grosso uma iniciativa aqui multisetorial para propor ações e soluções para isso tudo. Chama Estratégia Produzir, Conservar e Incluir.

PS2. Aprendi muito sobre redes lendo a Madeleine Lascko, provavelmente a pessoa que mais entende do assunto no Brasil. Recomendo.

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